E depois do Isolamento? Por Silvia Coutinho – Psicóloga

Drª Sílvia Coutinho, mestre em Psicologia pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA – Instituto Universitário), tendo iniciado o doutoramento pelo ISPA. Com formação especializada em Terapia Familiar e de Casal, pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF), estando a frequentar no momento presente uma pós-especialização em Terapia de Casal. Trabalhou em contextos de intervenção diversos (escolar, institucional, hospitalar e prática clínica privada) com crianças, adolescentes, adultos, pais/cuidadores e casais. realizo consultas de Psicoterapia (crianças e jovens), Terapia Familiar e Terapia de Casal. Socia membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF) e membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, já tendo colaborado por diversas vezes ao longo dos anos com a impressa (Revista Focus, Jornal Diário de Notícias, Revista Família Cristã, Revista Semana Médica, Revista Progredir, entre outros).Trabalha atualmente na Clínica da Autoestima, sendo a responsável pela área Infantojuvenis e Terapia Familiar e de Casal.

Depois deste período longo de isolamento, nem todos reagem da mesma maneira, num campo geral, quais os vários tipos de reações?

R. Após este longo período de isolamento, verificamos que existiram diferentes formas de experienciar o isolamento, provavelmente dependendo da personalidade de cada indivíduo e mesmo dependendo das circunstâncias em que viveram o isolamento, ou seja, se sozinhos, se apenas em casal (e em que ciclo de vida cada casal se encontra), em família com filhos, etc. Para algumas pessoas, este poderá ter sido o momento que tanto ansiavam para parar ou abrandar, conseguirem estar mais consigo próprios e com as suas pessoas. Para outros, o isolamento poderá ter sido um pouco mais asfixiante, sentindo-se privadas de se ligarem aquilo que as torna pessoas (as suas rotinas, os seus familiares). Independentemente das diversas formas com que tenhamos vivido este isolamento, todos experienciamos certamente algum tipo de desafio.

Nesse período poderão levar alguns casais ao divórcio, não tendo alternativa do contato 24h sobre 24h durante 2 meses?

R. Neste contexto, um casal ao conviver 24/24 horas poderá ter-se confrontado com inúmeros desafios, nomeadamente em conseguir manter o seu equilíbrio e estabilidade emocional, enquanto casal, como também enquanto indivíduos. O isolamento poderá ter conduzido os casais a confrontarem-se com o atual estado da sua relação. No início do isolamento falou-se muito na possibilidade do aumento dos números de divórcios ou mesmo no aumento da taxa de natalidade daqui a alguns meses, isto porque as características da relação passariam a surgir com mais nitidez, pois não haveria como fugir do contacto. 

Assim, muitos casais surgem agora cansados, exacerbados com os mil e um papéis que tiveram de exercer, todos eles no mesmo espaço e contexto. Para além de marido e mulher, tiveram de ser pai e mãe, trabalhador com a produtividade em dia requerida pela sua entidade patronal, donos de casa com capacidade de gerir as tarefas domésticas, professores dos seus filhos, e muitas vezes com uma dificuldade enormíssima em reequilibrar tudo isto e estarem um pouco consigo próprios para conseguirem descansar, relaxar ou simplesmente tentarem lidar com o stress e ansiedade face aquilo que todos nós estamos a viver. 

Á primeira vista, o cenário parece caótico e acredito que muitos casais e famílias tenham vivido ultimamente com um imenso stress para conseguirem desempenhar corretamente toda esta amalgama de papéis. Contudo, muitos outros, conseguiram estipular rotinas, limites, fronteiras e tempos específicos para tarefas, demarcando desta forma, os diferentes papéis, permitindo-lhes encontrarem alguma estabilidade no meio de todos estes desafios. Por ser um momento tão atípico, muitas famílias procuraram lidar com todos os desafios, da maneira mais consciente e equilibrada possível para si a cada momento. 

Como medica Psicóloga, nesta passagem ao “Estado de Calamidade”, o que sugere aos cuidados e rotinas a fazer?

R. Neste momento, poderemos começar a retomar algumas rotinas. Contudo, mediante os mesmo cuidados de higiene e segurança.  É importante percebermos que o vírus ainda não nos deixou, de modo a conseguirmos proteger-nos, a nós e aos outros, evitando assim a tão falada segunda vaga. Poderá ser importante recriar e reiniciar algumas rotinas que possam permitir ganhar o nosso equilíbrio emocional, como por exemplo, a prática de exercício físico na rua, alguns passeios, evitando aglomerados. O retomar das rotinas de forma faseada, permite-nos voltar a percecionar algum sentido de normalidade, vital para sairmos do estado de alerta e hipervigilância psicológica em que nos encontramos nos últimos meses e assim relaxar um pouco emocionalmente. Contudo, poderá ser este precisamente o problema que poderá conduzir a uma segunda vaga do vírus. Ao sentirmos que estamos a ganhar normalidade, relaxamos emocionalmente e da mesma forma, relaxamos e descontraímos em excesso com as medidas de segurança. É vital percebermos que a situação não se encontra resolvida e que é responsabilidade de todos nós conseguirmo-nos preservar do caos a que o vírus conduz a vida de todos.

As crianças tendo estado também nesse isolamento, e tendo em conta que as aulas e creches não irão abrir, e não podendo gastar a sua energia, como poderão os pais ou tutores, fazer nesta nova vida também para eles? 

R. As crianças adoram brincar. E algo que não deveremos retirar-lhes é a sua possibilidade de brincar e explorar. Contudo, também elas se viram afastadas das suas rotinas, dos seus amigos e da possibilidade de correr livremente. É necessário explicar às crianças sobre o que se passa à sua volta no mundo, adaptando-se a comunicação à sua faixa etária. Foram-nos retiradas muitas coisas com o isolamento, nomeadamente ao nível das relações humanas. Contudo, não nos retiraram a possibilidade de imaginar. As crianças têm um mundo imaginário e simbólico riquíssimo! Poderemos e devemos utilizá-lo de forma a recriar situações, momentos, locais e brincar ao faz de conta! Construir com elas castelos de cartão, aviões, parques, etc, brincadeiras que permitam a criança estar entretida, onde possa depositar a sua necessidade de descoberta, de aprendizagem, de criatividade e lhe permitam brincar! Para a imaginação não há limites! 

Dependendo da idade da criança, poderá ser mais ou menos fácil a comunicação de como deverá ser retomada a escola. Para crianças com maior capacidade de compreensão, poderá ser mais fácil perceber que o voltar à escola, deverá ser agora feito de uma maneira diferente daquela feita anteriormente, que haverá novos cuidados que deverá ter sempre e medidas de proteção como o uso de máscara que deverão ser utilizadas e porquê. Para as crianças mais pequeninas, até aos 3 anos, tudo poderá ser bem mais complexo e desafiante. Imperam precauções, que se revelam necessárias ter. Contudo, os mais pequenos apreendem o mundo com todos os seus sentidos. Relacionam-se inteiramente! Entregam-se inteiramente! Não se relacionam por metades. São autênticos e genuínos, como só eles sabem ser! Sabemos que as crianças se adaptam bem mais facilmente às mudanças, comparativamente a nós adultos. Contudo, receber-se na escola uma criança, impossibilitando-lhes os abraços, os beijinhos, o toque, os sorrisos, as brincadeiras livres, poderá causar danos profundíssimos naquele ser humano.  Para além disso, após tanto tempo de presença com os pais, o regresso poderá ressignificar voltar a sentirem-se mais vulneráveis e a precisar de colinho. Tenho muitas dúvidas acerca do modo de atuação dos profissionais que contemplem o afastamento social, as máscaras, etc. Terá o ser humano a capacidade de recusar o afeto a uma criança e de se vincular com ela com os 5 sentidos [sendo esta uma das necessidades humanas mais básica]? Poderemos de ter nos reinventar de muitas formas nas mais vertentes áreas da sociedade e do mundo, mas enquanto psicóloga preocupa-me bastante em que lugar fica o afeto aos mais pequenos nas creches, sendo este vital para o seu bom desenvolvimento.

Estamos numa vida diferente, e um futuro ainda com um grande ponto de interrogação, acha que se deve recorrer á Psicologia só quando se sente que tem a saúde mental debilitada ou mal comessem as primeiras perguntas a si mesmo, de interrogações menos positivas?

R. Em caso de necessidade de acompanhamento psicológico, recomendo sempre a sua procura, com ou sem pandemia!

Neste momento existem algumas entidades, a ajudar á saúde mental, quais as que propõe? 

R. Felizmente, existem diversos órgãos e entidades que criaram iniciativas de modo a promover o apoio psicológico a quem mais necessite e de forma absolutamente gratuita. Por exemplo, a Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, entidade da qual faço orgulhosamente parte, criou uma interessante iniciativa de promover apoio às famílias por telefone, em época de Covid-19, e de forma gratuita. 

Muitas famílias, passaram um grande impacto no isolamento, mas também ficaram sem emprego, sem dinheiro para comer, estas famílias poderão ser ainda mais atingidas nessa ajuda dessas entidades? 

R. Após o impacto psicológico e emocional do isolamento, muitas famílias terão agora que se confrontar com o impacto económico causado pelo vírus. Muitas famílias, ficaram sem emprego e vêem-se agora numa situação económica e social de tremenda instabilidade, podendo provocar um aumento significativo de situações de depressão e ansiedade, face à situação que vivem no momento presente e igualmente face à incerteza que o futuro reserva, que é imprevisível e que não está no nosso controlo. Que poderão recorrer á ajuda e acompanhamento dos órgãos em cima referidos, no campo do apoio á saúde mental.

Perfil: Drª Silvia Coutinho | Contacto: silviajesuscoutinho@gmail.com | Consultório: Clinica da AutoEstima

Um grande abraço a todos ?

Por Pedro Leitão

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